Minha Primeira Vez no Second Life
– Amor, instala o The Sims no meu notebook pra mim?
Estávamos eu e minha esposa Aline sozinhos em casa, domingo de manhã, as crianças despachadas para uma festa com os avós. Quando você tem filhos pequenos, o prospecto de um dia inteiro sem crianças em casa cria instantaneamente a ilusão de que você tem um longo dia cheio de tempo livre pela frente, o que te faz pensar em diversas idéias inúteis pra se ocupar, já que você tem tempo de sobra (vai sonhando). Por isso, minha sugestão não soou tão estúpida:
– Você não queria saber como é esse tal de Second Life? Ao invés do The Sims eu podia instalá-lo e você entra pra conhecer, que tal?
Sugestão prontamente aceita, claro. Afinal estamos falando de uma viciada em The Sims e demais jogos de “simulação de vida real”, e o Second Life é sem dúvida a última sensação do gênero. E já que eu não estava fazendo nada mesmo, resolvi instalar também no meu computador, assim eu poderia ver com meus próprios olhos do que se trata esse hype todo.

Jogo instalado, é hora de criar um cadastro. Ela já tinha criado o dela em março, sabendo que uma hora ia acabar conseguindo me convencer a instalar o jogo pra ela. “Aline Bailey”, nome bonito, nada de Aline738302842 ou algo similar que as pessoas costumam usar nesses jogos. Faltava eu criar o meu. Nome, endereço de e-mail, data de nascimento, as coisas de sempre, nenhuma dificuldade. E foi aí que já começaram os problemas. Minha primeira tentativa foi “Rodrigo Bailey”: já que somos casados, seria bonitinho termos o mesmo sobrenome, não? Pelo menos foi o que pensei na hora. E o “Rodrigo” eu escolhi porque detesto inventar nomes. Mas não adiantou: Rodrigo Bailey já existia. Assim como a combinação de “Rodrigo” com qualquer sobrenome disponível no SL. Numa total ausência de criatividade para criar um nome inteligente, escolhi “Cheapo Bailey” para me livrar logo do cadastro. Essa coisa de inventar nomes me deixa nervoso.
Terminando o cadastro - simples e rápido, ponto pra eles - entrei no jogo. A primeira coisa que fiz foi desativar todo e qualquer recurso visual que o jogo permitisse desativar, para que eu conseguisse rodá-lo no meu computador da era paleozóica. Eu realmente desativei tudo: se fosse possível desativar mais alguma coisa, acho que o jogo representaria cada personagem na minha tela como um quadrado cinza.
A primeira coisa que o jogo te pede, após logar pela primeira vez, é para escolher um visual básico de personagem, que você pode customizar depois. Os visuais disponíveis para o sexo masculino são: um tipinho comum, um jovenzinho emo, uma bichona (que nada mais é do que um emo com mais maquiagem), um bombadão de balada e um bicho que se parece com um coelho (vai saber, alguém deve ter este fetiche). Escolhi o tipinho comum, achei os outros extravagantes demais pra mim. Logo em seguida meu avatar já estava parado no meio de uma tal ilha de orientação.
Achei essa idéia interessante: quando você entra pela primeira vez no SL, ao invés de cair direto no jogo, você é colocado em uma ilha de orientação, junto com os novatos como você, para aprender como jogar. Isso impede que os panacas que nem eu - que acabaram de entrar e não sabem o que fazer - atrapalhem os “jogadores sérios” enquanto aprendem como funcionam os 9827 comandos disponíveis na tela. Claro, a idéia é interessante mas não significa que funciona: a primeira “tarefa” que eu tinha que cumprir era andar até um círculo vermelho, mas mesmo depois que eu andei pra frente, pra trás, girei e pulei dentro do tal círculo vermelho, nada acontecia. Me senti um idiota: logo eu, viciado em video games desde meus 8 anos de idade, não conseguia cumprir a primeira e mais simples tarefa do jogo. Enquanto isso a Aline já estava batendo papo com alguém e andando pra lá e pra cá de carro. Pra piorar um pouco mais, eu sumi com a tela que te explica os “primeiros passos” e não consegui fazer a dita cuja voltar de jeito nenhum. Mal tinha entrado no SL e já estava completamente perdido.
Desisti do tutorial e resolvi fuçar na customização do meu avatar. Este recurso sim, me surpreendeu: você consegue mudar praticamente qualquer detalhe da aparência do seu avatar. Quer criar um loiro fortão? Dá. Quer criar um anão narigudo? Também dá. Quer fazer um clone do Slot do filme Goonies? Sem problemas. Dá até pra você definir o tamanho do seu “pacote” (mais explicitamente, o volume que o seu saco faz na calça) ou importar uma imagem para o jogo e usá-la como tatuagem. Perdi cerca de uma hora só fuçando em cada opção para deixar o meu avatar com uma aparência que me agradasse. Quando terminei, a Aline já tinha saído da tal ilha de orientação e já estava passeando pelo mundo “real” do Second Life, fazendo alguns comentários do que estava vendo (”Olha, tem uma pessoa pelada aqui!“, por exemplo).

Balada no Second Life
Resolvi trapacear e perguntei à Aline como ela tinha feito pra sair da tal ilha, e ao invés de aprender a fazer tudo certo simplesmente fiz o que ela me mandou. Fui parar no meio de uma rua cercada de construções e cheia de gente. Após procurar um pouco pela Aline em vão, descobri que o jogo tem um mapa no estilo do Google Earth: basta você digitar o lugar onde quer ir que você rapidamente se teletransporta pra lá. Pesquisei o nome da Aline e me teletransportei para onde ela estava: uma balada (eu ainda me pergunto como ela consegue descobrir essas coisas tão rápido, já tinha achado uma balada).
Lá, a Aline tinha descoberto que a cada 10 minutos dançando você ganha um dólar (detalhe, se você entra no SL sem pagar você começa o jogo sem nenhum dinheiro), então ela estava lá dentro de uma gaiola se chacoalhando. Tentei dançar também (aqui você nota que provavelmente a equipe de animadores do SL deve ter uma bela influência gay, basta olhar como um homem dança no jogo) mas achei aquilo muito chato, e saí da tal balada para fuçar um pouco. Fui parar em uma praia, caí dentro do mar, e fiquei uns 10 minutos tentando sair da água sem sucesso. Até que descobri que no SL você pode voar, e consegui sair. Comecei a voar pra lá e pra cá até que meu avatar bateu em uma parede invisível. A parede circulava uma espécie de casa de veraneio, e apareceu uma mensagem dizendo que eu não podia entrar ali porque meu nome não estava na lista. Logo pensei foi que devia estar rolando uma suruba de proporções astronômicas ali, mas como não tinha jeito mesmo de entrar, continuei voando para outros lugares.
A Aline sugeriu então que procurássemos alguma ilha de brasileiros no jogo. Digitei “Brasil” no mapa e instantaneamente caí em uma quadra de futebol cheia de gente, cercada de propagandas do Bradesco, e a primeira mensagem que aparece no chat é de um fulano qualquer perguntando “Alguém a fim de transar?“. É, realmente estou no Brasil. E aí notei o que é o SL para os brasileiros: um mercadão. Me vi cercado de propagandas e pessoas tentando ganhar dinheiro: um cara andava pra lá e pra cá segurando uma placa promovendo a nova novela das sete na Globo (depois descobri que no mesmo dia teve uma festa de lançamento da novela dentro do SL), e praticamente todas as construções ao meu redor eram lojas. Todo mundo quer ganhar algum dinheiro, não importa como. Exatamente da mesma forma que as coisas são no mundo real.
Tenho que admitir que no geral achei o Second Life um tédio. Por mais que tenha procurado, não consegui encontrar qual a graça que tanta gente encontra no jogo. Ou melhor, no programa, porque não dá nem pra chamar de jogo, uma vez que você não tem objetivo pra cumprir. Foi então que, entediado e decepcionado, resolvi fuçar um pouco nas lojas que estavam ao meu redor. Detalhe importante: os cenários do jogo são baixados e desenhados em tempo real, e por algum motivo (que deve ser a carroça do meu computador) este processo é muito lerdo. Então conforme eu ia andando, inicialmente eu via um borrão cinza, que vagarosamente ganhava cor, depois forma, e por último, muito tempo depois, apareciam os objetos e as pessoas do ambiente.

Fui entrando nas lojas e clicando por onde via. Em uma loja ganhei uma revista, que consegui abrir mas não consegui virar a página. Em outra loja ganhei uma camiseta de vendedor: bastava eu usar a camiseta e vender produtos da loja pra outras pessoas que eu ganharia comissão - tudo isso através de um processo complicadíssimo. Até que cheguei em uma loja em que os produtos não apareciam. Esperei um pouco, por causa da lentidão do meu computador, mas não adiantou, não aparecia nada dentro da loja. A única coisa que eu podia ver era um círculo verde (no SL, vários itens que são interativos são representados por um círculo verde) e o nome do produto: algo como “Amigo Solitário”, não me lembro ao certo. Resolvi fuçar: cliquei no circulo verde e ordenei meu avatar a interagir com o tal objeto. Foi então que fui surpreendido por uma cena horripilante, nojenta, grotesca, absurda: o objeto era um vibrador (que agora sim, tornou-se visível), e o meu avatar estava feliz e sorridente “interagindo” com o dito cujo.
Era vergonhoso demais: meu pobre avatar, que perdi mais de uma hora criando, sentando repetidamente em um vibrador. Se fosse possível cometer suicídio no Second Life, eu o teria feito. Sem motivação alguma para fazer qualquer outra coisa ali, encerrei o jogo, desinstalei, desliguei o computador e fui ler um livro. Isso tudo, claro, ao som de gargalhadas histéricas da minha esposa.
Resultado da nossa primeira experiência no Second Life: a Aline vendeu o corpo para ganhar um dólar, e eu tomei no cu. Literalmente.
Second Life, nunca mais.
ah essa porcaria do seu blog toda vez que eu tento comentar da erro.
bom ja nem me lembro o que eu escrevi pq ele perdeu e eu nao sei se foi. mas o que eu queria dizer é que seu texto ficou muito bom, sa forma como vc transformou a experiencia em texto foi muito boa! e eu ri muito logico!
I eu que ainda nem entrei no jogo por causa da maldita, net discada fuleira, é mole ou quer +….
…
Nooosssa, eu ri muito!!! Você é muito tapado, mas bem divertido, parabéns!
PS: …eu disse tapado, mas não querendo te ofender. Meu tio de 62 teve esse mesmo problema, ahahahah!!!
hahahahahahahaha
Um dos melhores relatos sobre a primeira experiência no Second Life que eu já li. Muito bom!
HAHAHAHAHahhahUHAuHUAHhUAhuHAUhuA
Velho, hilário esse post!!!!
Normalmente não tenho saco pra ler posts com mais de quatro parágrafos, mas esse está sensacional. Muito engraçado mesmo, e envolvente. Parabéns pela tomada no cu!!!!
HAHAHAHAHahhahUHAuHUAHhUAhuHAUhuA
kkkkkk…
ki doidu